Professor: como ser transformador da educação?

Pensar na educação como um agente transformador da sociedade é algo que tira o sono dos professores e de todos os pesquisadores da educação, não é verdade?

O problema está na posição antagônica do professor da sociedade brasileira: de um lado o redentor de uma nação fracassada, aquele que por amor ao ofício, tira os alunos da escuridão e os elevam à condição de cidadãos e,  de outro lado, a figura cansada, desanimada, mal remunerada e fracassada do professor em sua luta diária para ser ouvido em sala e para conseguir ensinar algo para seus alunos.

Acontece que ambas as imagens são carregadas de senso-comum e de falhas enormes no que diz respeito à profissão do professor.

Mas não se aflija, apesar de nós professores não sermos os salvadores da nação perdida, conseguimos sim fazer diferença e deixar nossas marcas em nossos alunos.

Compreender essa dualidade e a dinâmica do papel do professor enquanto agente transformador em nossa sociedade, primeiro e antes de mais nada, exige que compreendamos a essência da função do professor e da escola na vida em sociedade. Vamos então ver alguns pontos:

A história da humanidade tem sido marcada por constantes transformações ideológicas, culturais, políticas, sociais entre outras. A sociedade tem passado por uma espécie de revolução econômica, tecnológica e sociológica, ocasionando mudanças locais, regionais, e em escala mundial que, embora com impactos e significados específicos para um ou outro país, produzem influências e transformações na vida material, nas ideias e na cultura da humanidade.

O mundo está enfrentando uma profunda, complexa e multidimensional crise, que afeta nossas vidas em suas múltiplas dimensões: saúde, educação, meio-ambiente, relações sociais, econômicas, políticas e tecnológica. Tentamos compreender o trânsito da sociedade da hera pós-moderna para a era da informação. E dentro desta perspectiva vemos os valores como a ética, a liberdade e a dignidade se perderem, e darem lugar aos valores globais.

A formação da sociedade global reabre a problemática da modernidade em suas implicações filosóficas, científicas e artísticas. No âmbito da globalização de coisas, gentes e ideias, modificam-se os quadros sociais e mentais de referência. Tudo que é evidentemente local, nacional ou regional revela-se também global. (IANNI, p. 163)

Ou ainda, como nos mostra Bourdieu:

Ao imporem ao resto do mundo categorias de percepção homólogas às suas estruturas sociais, os Estados Unidos reformatam o mundo à sua imagem: a colonização mental operada através da difusão desses verdadeiros – falsos conceitos apenas pode conduzir a uma espécie de “Consenso de Washington” generalizado, e até espontâneo, como se pode observar correntemente em matéria de economia, de filantropia ou de ensino de. Efetivamente, esse discurso duplo fundamentado na crença que imita a ciência, sobrepondo ao fantasma social do dominante a aparência da razão (especialmente econômica e politológica), é dotado do poder de realizar realidades que pretende descrever segundo o princípio da profecia auto – realizadora: presente nos espíritos daqueles que tomam decisões políticas ou econômicas e de seus públicos, ele serve de instrumento de construção de políticas públicas e privadas, ao mesmo tempo que é instrumento de avaliação dessas políticas. Como todas as mitologias da idade da ciência, a nova vulgata planetária apoia-se numa série de oposições e equivalências, que se sustentam e contrapõem, para descrever as transformações contemporâneas das sociedades avançadas: desinvestimento econômico do Estado e ênfase nas suas componentes policiais e penais, desregulação dos fluxos financeiros e desorganização do mercado de trabalho, redução das proteções sociais e celebração moralizadora da “responsabilidade individual”: Como as dominações de gênero e etnia, o imperialismo cultural constitui uma violência simbólica que se apoia numa relação de comunicação coerciva para extorquir a submissão e cuja particularidade consiste, neste caso, no fato de universalizar particularismos vinculados a uma experiência histórica singular, ao fazer com que sejam desconhecidos enquanto tal e reconhecidos como universais (BOURDIEU e WASQUANT 2004, p.24-28.)

Dessa forma, e analisando o desencadeamento de crises no qual nos encontramos, podemos perceber que em todos os sentidos e segmentos, sejam eles culturais, estruturais, físicos ou psicológicos, sociais e políticos a sociedade vem sentindo de forma, por vezes mais amena, e por outras mais severa a sua desregulação, assim sendo, estudar e compreender o espaço da escola enquanto reforçadora do sistema ou agente transformador é a busca por compreender também essa transição na qual estamos inseridos.

Bourdieu entende a escola como uma instituição social que reproduz a cultura e os anseios da classe dominante, dessa forma vê a escola como mantenedora do status quo. Para ele, a estrutura, o funcionamento e a organização da escola, nos moldes tradicionais, em nada pode contribuir para a transformação da sociedade. Ao contrário disso, ela reforça os estigmas, exclui aqueles que ela classifica como fracassados e mantém, dessa forma, as coisas como estão.

Bourdieu apresenta, no livro “A miséria do Mundo” a concepção de efeito de destino. Para o autor, o ambiente social no qual os indivíduos estão inseridos, condicionam suas relações, suas projeções e também suas expectativas diante da vida. Pessoas nascidas em ambientes muito desprivilegiados e massacradas pelo sistema tornam-se, estigmatizados pelo ambiente social.  Os encontros se multiplicam em situações propícias a desencorajá-los ou a inibi-los, sobretudo, em circunstâncias de confrontos com o preconceito racista ou com julgamentos classificatórios e estigmatizantes. E a escola reforça esse sentimento, reiterando o efeito de destino e fortalecendo a posição de inferioridade desses alunos, já excluídos do âmbito social. (BOURDIEU,1997)

Bourdieu coloca ainda em debate a questão participação do Estado na ofensiva de relegar espaços para as comunidades mais carentes reforçando ainda mais o efeito de destino e o desalento e dificuldades dos funcionários e sobretudo educadores em contribuir de alguma forma para a transformação da sociedade.

Pensando sobre a ótica das questões sociais e coletivas, conforme podemos perceber, o papel do professor é quase que irrelevante se colocado frente à avalanche que representam as transformações ocorridas nas últimas décadas nas sociedades ocidentais. Existem as questões de âmbito cultural, social, político, geográfico, étnico e tantos outros que marcam os indivíduos e suas vivências de modo que a prática do professor fica quase que completamente impedida de representar um elemento transformador.

Paulo Freire, no entanto, afirma que é a postura do professor que define o andamento do processo educacional, independente da construção enquanto espaço físico, ou do meio social, ou de influências ideológicas. Segundo ele, sujeito alcança; através da criticidade, da consciência de seu estar no e com o mundo e de seu inacabamento; a liberdade e a democracia. Para se tornar democrática, a escola, assim como todos os outros segmentos da sociedade, precisaria de preparar o homem para tal; esse deixaria de ser acrítico para conquistar responsabilidade social e política; e por conseguinte participar agindo e refletindo. “Assim, iríamos ajudando o homem brasileiro, no clima cultural da fase de transição, a aprender democracia com a própria existência desta.” (FREIRE, 2000. p.100) Para Freire é indispensável uma educação que leve o homem a refletir sobre si e sobre o mundo, a respeito de seu direito de participar, tanto na escola como em toda a sociedade. Freire concentra seus argumentos em uma perspectiva de luta e transformação focalizada no indivíduo, e em sua força, haja vista sua condição histórica. A sua proposta é fundamentada em uma prática de educadores voltada para a ética, para a dignidade. Propondo dessa forma, a transformação social a partir da educação e da postura dos educadores. (FREIRE, 1996). “O que importa, realmente, ao ajudar o homem, é ajudá-lo a ajudar-se (e aos povos também). É fazê-lo agente de sua própria recuperação. É, repitamos, pô-lo numa postura conscientemente crítica diante de seus problemas.” (FREIRE, 2000. p.66)

Nos encontramos diante de um dilema: de um lado as influências que sofremos do ambiente e das ideologias intencionalmente estruturadas para obscurecer a visão acerca da realidade e de outro a postura do professor enquanto desmistificador dessa mesma realidade e propulsor da transformação. Estamos no tempo de avaliar nossos valores para nos empenharmos a alcançar nossa libertação e ajudar os outros a alcançá-la também, assumindo novos paradigmas, novos critérios éticos, novas estratégias e novos métodos que nos permitam vencer a opressão subsidiada pelo capitalismo neoliberal.

Nos encontramos diante de um dilema: de um lado as influências que sofremos do ambiente e das ideologias intencionalmente estruturadas para obscurecer a visão acerca da realidade e de outro a postura do professor enquanto desmistificador dessa mesma realidade e propulsor da transformação. Estamos no tempo de avaliar nossos valores para nos empenharmos a alcançar nossa libertação e ajudar os outros a alcançá-la também, assumindo novos paradigmas, novos critérios éticos, novas estratégias e novos métodos que nos permitam vencer a opressão subsidiada pelo capitalismo neoliberal.

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