Por que ser um professor capacitado?

Quando nos colamos a pensar sobre a razão pela qual o professor deve se capacitar, surgem diversas e múltiplas respostas e todas nos remetem ao fato de que é urgente que o professor mantenha-se em constante formação e reflexão.

Paulo Freire, no livro Pedagogia da Autonomia de 1997, falava que “Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática”.

Para ele, é fundamental, que o professor exercite a autocrítica a partir de suas ações cotidianas. Nesse sentido, Freire falava em ação-reflexão-ação.

É fundamental que o professor questione a si mesmo e suas decisões na sala de aula. Nesse sentido, e para que ele consiga vencer essa empreitada, o professor precisa estar em constante formação.

O Plano Nacional de Educação, com metas a serem atingidas até 2024, estabelece as metas 15, 16, 17 e 18 para a formação continuada e valorização dos professores brasileiros.

Mas nossas reflexões precisam ir além das ofertas de formação continuada para professores e valorização do magistério por parte das entidades governamentais.

Nossas reflexões precisam girar em torno também da formação cultural e individual dos professores brasileiros.

Professor-Capacitado

Professores do Século XXI

Ora, já estamos vivendo ha 18 anos no terceiro milênio, mas a formação dos professores ainda está arraigada aos parâmetros do Século IXX.

Philipppe Perrenoud, em seu livro “As competências para ensinar no Século XXI, escrito em parceria com Mônica Gather Thurler, em 2002, faz algumas reflexões acerca da formação de professores e das práticas educacionais para o novo milênio.

Para ele, o início do século e do milênio, deve ser marcado pela reflexão daquilo que desejamos para os professores, para a educação e para os alunos.

Segundo Perrenoud, é impossível formar professores sem fazer escolhas ideológicas. Conforme o modelo de sociedade que defendemos, atribuímos as finalidades à escola e ao papel do professor.

Edgar Morin (2002) apresenta os sete saberes necessários a educação do futuro e que a escola deveria ensinar:

  • As cegueiras do conhecimento: erro e ilusão;

  • O conhecimento pertinente;

  • A condição humana;

  • A identidade terrestre;

  • O confronto com as incertezas;

  • A compreensão e

  • A ética do gênero humano ou antropoética.

Nós, assim como Perrenoud, comungamos com Morin e acreditamos que esses são os verdadeiros ensinamentos a serem transmitidos pela escola, mas para construirmos essa escola que habita nosso imaginário, precisamos antes de mais nada vislumbrar as características desse professor.

Professor capacitado - Novo Perfil

Um novo perfil de Professores

É preciso que os professores tenham um determinado perfil para que consigam atender às demandas do novo milênio. Nas palavras de Perrenoud:

Consigo visualizar uma figura do professor ideal no duplo registro da cidadania e da construção de competências. Para desenvolver uma cidadania adaptada ao mundo contemporâneo, defendo o perfil de um professor que seja ao mesmo tempo:

  • Pessoa confiável;
  • Mediador intercultural;
  • Mediador de uma comunidade educativa;
  • Garantia da Lei;
  • Organizador de uma vida democrática;
  • Transmissor cultural;

No registro da construção de saberes e competências, citaria um professor que fosse:

  • Organizador de uma pedagogia construtivista;
  • Garantia do sentido dos saberes;
  • Criador de situações de aprendizagem;
  • Administrador da heterogeneidade;
  • Regulador dos processos e percursos de formação.

Completaria essa lista com duas ideias que não tem a ver com competências, mas com posturas fundamentais: a prática reflexiva e a implicação crítica.

  • A prática reflexiva, porque nas sociedades em transformação, a capacidade de inovar, negociar e regular a prática é decisiva. Ela passa por uma reflexão sobre a experiência, favorecendo a construção de novos saberes,

  • A implicação crítica porque as sociedades precisam que os professores envolvam-se no debate político sobre a educação, na escala dos estabelecimentos escolares, das regiões e do país. Esse debate não se refere apenas aos desafios corporativos ou sindicais, mas também às finalidades e aos programas escolares, à democratização da cultura, à gestão do sistema educacional, ao lugar dos usuários, etc. (PERRENOUD, 2002, p. 15)

Tendo vista essas contribuições, podemos inferir que o trabalho do professor, assim como o currículo e a ação docente, está longe de ser neutro.

Professor capacitado transformador

Mais do que um formador, um transformador!

O trabalho do professor é ideológico. É um ato político e como tal, traz consigo opções e convicções. Nesse sentido, acreditamos que as convicções que devem estar presentes no imaginário do professor são aquelas ligadas à mudança, à transformação, à construção de uma sociedade mais humana, mas consciente de seu estar no mundo e com o mundo. Por isso, se faz fundamental a busca por formação.

O professor precisa ser um leitor, um curioso e cheio de desejos pelo saber.

Sabemos que mudar não é fácil e transformar aquela perspectiva de um professor como o centro do saber e o que ensina, tendo todos os alunos atentos à sua fala não é fácil. Mas não podemos nos esquecer de que estamos já na segunda década no novo milênio.

O tempo  passa rápido e ainda estamos reproduzindo uma escola ultrapassada, criada no início da era capitalista e que tinha o intuito de preparar para o mercado de trabalho ou atender às demandas das igrejas católica e protestante. Por isso, é fundamental capacitar-se.

Falamos um pouquinho mais sobre este tema em nosso podcast. Aproveite para ouvir e se aprofundar!

 

Até a próxima.

Referência:
BRASIL. Plano Nacional da Educação. Lei nº 13.005/2014. Brasília, DF, Senado, 2014.
PERRENOUD, Philipe. As competências para ensinar no século XXI: a formação dos professores e o desafio da avaliação.  Porto Alegre: Artmed, 2002.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, Brasília, DF: Unesco, 2007.
LIBÃNEO, José Carlos. A Prática Pedagógica de Professores da Escola Pública. São Paulo. 1985
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 24 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2000.
______. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à pratica pedagógica. 8 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1996.

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