O Nascimento da Linguagem

Pensar em linguagem inicialmente nos remete a refletir sobre seu significado, certo? O que é a linguagem? O que é o nascimento da linguagem? A linguagem pode ser entendida como o signo desenvolvido pelos seres humanos para se comunicar. Mas como ela surge? Como ela se desenvolve?

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Acreditamos que seja de fundamental importância que o professor compreenda o processo de aquisição da linguagem para que sua intervenção pedagógica seja eficaz. Existem diferentes teorias, de diferentes pesquisadores acerca da aquisição da linguagem.

Por exemplo, Piaget e Vygotsky falam da aquisição da linguagem na construção do pensamento e em muitos pontos se encontram, mas em tantos outros se distanciam significativamente.

Refletir sobre o nascimento da linguagem é algo que não pode ser feito em algumas linhas, dada a complexidade do tema e multiplicidade de vieses existentes (sociais, linguísticos, culturais, psicológicos, biológicos, geográficos, etc.).

Por isso, iremos nos ater nesse texto às contribuições e reflexões de Piaget e Vygotsky sobre o nascimento da linguagem na criança. Nossas reflexões, portanto, serão apenas sob uma ótica da linguagem.

O Nascimento da linguagem - fala

O Nascimento da Linguagem para Vygostky

Para Vygotsky, a linguagem está fundamentalmente ligada às relações sociais e culturais estabelecidas entres os indivíduos. Mas tanto ele quanto Piaget concordam que existe uma raiz genética nesse processo de construção.

Ambos os autores afirmam que o nascimento da linguagem representa um marco significativo para o desenvolvimento humano. Antes da fala, as crianças pequenas possuem um pensamento prático e ao construírem a capacidade de comunicar verbalmente, desenvolvem uma nova forma de pensar.

Ao aprender a usar a linguagem para planejar uma ação futura, a criança consegue ir além das experiências imediatas. Esta “visão do futuro” (ausente nos animais) permite que as crianças realizem operações psicológicas bem mais complexas (passa a poder prever, comparar, deduzir, etc.)(REGO, 1994, p. 66)

Para Vygotsky a linguagem antecede o pensamento e para Piaget o pensamento antecede a linguagem.

A diferença mais marcante entre os dois é encontrada em suas opiniões sobre o papel da linguagem no desenvolvimento intelectual. Para Vygotsky, a aquisição da linguagem do meio social resulta em raciocínio e pensamento qualitativamente enriquecidos ou desenvolvimento intelectual. Piaget considerou a linguagem falada como uma manifestação da função simbólica (capacidade de empregar símbolos para representar), o que reflete o desenvolvimento intelectual, mas não o produz (Fower, 1994). Na melhor das hipóteses, Piaget considerou a linguagem como facilitadora do, mas não como essencialmente necessária ao desenvolvimento intelectual. “Para Piaget, a linguagem reflete, mas não produz inteligência. A única maneira de avançar a um nível intelectual mais elevado não é através da linguagem, mas através da ação.” (Fower, 1994.p. 8) (WADSWORTH, 2003, p. 12)

O-nascimento-da-linguagem-bebe

O Nascimento da Linguagem para Piaget

Já para Piaget, o pensamento, mesmo que um pensamento motor, antecede a linguagem e, quando esta surge, a criança passa a organizar o pensamento de forma mais linear transformando completamente sua forma de perceber o mundo e se relacionar com os outros e com o meio.

A criança passa a ser capaz de reproduzir, através da linguagem – narrativa – fatos acontecidos anteriormente, e de antecipar as ações futuras, através da representação verbal. Além, é claro, de todas as ações reais e/ou materiais que realizava no estágio precedente.

Desse novo fato – aquisição da linguagem – decorrem três consequências essenciais para o desenvolvimento mental: início da socialização, aparecimento do pensamento propriamente dito e a interiorização da ação (intuição).

No momento da aparição da linguagem a criança se acha às voltas, não apenas de um universo físico como antes, mas com dois novos mundos e intimamente solidários: o mundo social e o das representações interiores. Lembremo-nos de que, a respeito dos objetos materiais ou corpos, o lactente começa por uma atitude egocêntrica – na qual a incorporação das coisas à sua atividade predomina sobre a acomodação – conseguindo, apenas gradativamente, situar-se em um universo objetivado (onde a assimilação ao sujeito a e acomodação ao real se harmonizam entre si). Da mesma maneira, a criança reagirá primeiramente às relações sociais e ao pensamento em formação com egocentrismo inconsciente que prolonga o do bebê. (PIAGET, 1995. P.24 – 25)

Piaget apresenta algumas reflexões acerca da linguagem sob o ponto de vista da formação da inteligência. Tais observações foram por ele agrupadas em três tópicos: as relações entre a linguagem e o pensamento O Nascimento da Linguagem - subir a escadano início da aquisição da linguagem, no período da aquisição das operações lógicas e durante o período das operações formais.

  • O pensamento e a função simbólica:
    Segundo o autor a linguagem é a fonte do conhecimento, segundo ele ao se comparar um bebê a uma criança de aproximadamente 2 anos e meio parece evidente que a linguagem modificou completamente as ações da criança, uma vez que essas ações eram primeiramente senso-motoras e passam a ser parte do pensamento. Onde a criança passa a ser capaz de reviver situações passadas e antecipar acontecimentos vindouros através da fala. E Piaget conclui: (…) o pensamento precede a linguagem e esta se limita a transformá-lo, ajudando-o a atingir sua forma de equilíbrio através de uma esquematização mais desenvolvida e de uma abstração mais móvel” (1995, p.80)
  • A linguagem e as operações concretas da lógica:
    Piaget afirma que a linguagem não é a única fonte de certas formas particulares de pensamento. As coordenações incluem, além de ações, espécies de reuniões e dissociações. E essas têm sua origem nas ações de reunir, dissociar, etc.
  • A linguagem e a lógica das proposições:
    Segundo ele, o autor, as operações formais se constroem por volta de 11 e 12 anos em todos os campos do desenvolvimento e não só no verbal. Essa fase representa o término das operações combinatórias que permitem ao sujeito completar suas classificações verbais e de lhes fazer corresponder este sistema de ligações gerais que constituem as operações proposicionais.

E Piaget conclui afirmando que:

Nos três campos que acabamos de descrever rapidamente, constatamos, então, que a linguagem não é suficiente para explicar o pensamento, pois as estruturas que caracterização esta última tem suas raízes na ação e nos mecanismos senso-motores que são mais profundos que o fato linguístico. Mas não é menos evidente que, quanto mais refinadas são as estruturas do pensamento, mais a linguagem será necessária para complementar a elaboração delas. (1995, p.85)

A importância de compreender o nascimento da linguagem.

Conhecer e compreender o processo de aquisição da linguagem do ponto de vista genético e cultural leva o professor a valorizar a fala, os erros, as brincadeiras e as hipóteses que as crianças estabelecem dentro da sala de aula.

Na educação infantil, é preciso valorizar as rodas de conversa e os momentos de escuta. E no ensino fundamental não pode ser diferente, é preciso ouvir a criança auxiliá-la para que consiga se expressar oralmente, organizar seu pensamento de forma sistemática.

O Nascimento da Linguagem - Educação Infantil

Para isso, a escola deve oportunizar sempre que possível apresentações, dramatizações, mostras culturais, debates, rodas de conversa, palestras, etc.

Além do enfoque dado no presente texto, um outro viés acerca da linguagem, é o da aquisição da linguagem escrita, mas esse, deixaremos para um próximo momento. 😉

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Até a próxima professores! <3



Referências

PIAGET, Jean. Seis Estudos da Psicologia. Trad. Maria Alice Magalhães e Paulo Sérgio Lima Silva. 21ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

_______. O Nascimento da Inteligência na Criança. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 387p.

REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis: Vozes. 3 ed. 1994

VYGOSTKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984

VYGOSTSKY, L.S. A imaginação e o seu desenvolvimento na infância. IN. YGOSTSKY, L.S. O desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes, 1998.p.107-130.

WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. Trad. Esméria. Rovai,  São Paulo: Pioneira Thomson. 5 ed. 1997. p.2 – 102.

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