O Imaginário Infantil

A Base Nacional Comum Curricular – BCNN – estabelecida no ano de 2018 apresenta uma forma muito rica e que representa uma grande conquista para a educação infantil brasileira. Nesse sentido, ela contempla a expressão da criança e de suas emoções, seus desejos e interesses elencando, dessa forma, o imaginário infantil no currículo escolar nacional.

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Quando falamos em educação infantil, imediatamente, nos vem à mente pensamentos acerca do brincar, do imaginário infantil e dos momentos de aprendizagem dentro e fora da sala.

Como nos apontam os Referencias Curriculares para a Educação Infantil e as Diretrizes Nacionais para a Educação Infantil, o brincar e o cuidado caminham lado a lado para garantir o desenvolvimento integral da criança.

O imaginario infantil - imaginacao

Nesse sentido, também vemos o quão fundamental é que o professor considere o imaginário infantil como um elemento indissociável da aprendizagem.

Para muitos autores, com os quais corroboramos, é através do imaginário infantil que ela, a criança, consegue expressar sua compreensão ou desentendimento de mundo. Para Wallon, o imaginário infantil está presente nos jogos de ficção, que são brincadeiras de imitação, faz-de-conta, jogos de função simbólica.

Para ele, a criança envolvida com esses jogos (casinha, brincadeira de médico, de supermercado, de escolinha) era capaz de ressignificar o seu mundo e compreendera si mesma e o outro.

Piaget entende o brincar de maneira muito semelhante ao entendimento de Wallon. Para ele, no estágio senso-motor(de zero aos dois anos idade aproximadamente), o brincar está relacionado a ações motoras, já no estágio pré-operatório (de três a seis anos de idade aproximadamente), com o advento da linguagem, a criança começa a se relacionar com o mundo, e o brincar passa a ser a tentativa de compreender as relações estabelecidas.

O imaginario infantil -brincadeiras

O Imaginário Infantil: Jogos Simbólicos

Assim, na vida coletiva, surgem os jogos simbólicos[1] (jogos de imaginação ou imitação). A natureza do jogo simbólico é imitativa, mas é também uma forma de auto expressão, o jogo simbólico é a forma mais pura do pensamento egocêntrico, em que a criança assimila o mundo que a cerca de acordo com seus próprios interesses.

Segundo Aroeira, Mendes e Soares, “o jogo simbólico pode servir ainda para resolver conflitos, para compensar necessidades não-satisfeitas, para inverter papéis (obediência e autoridade) e para a libertação do eu – brincar de ser o pai, de ser o professor, etc.” (1995, p.44).

O imaginario infantil - jogos

Segundo Wadsworth, o jogo simbólico vem satisfazer as necessidades da criança quando a linguagem se revela insuficiente ou inapropriada na visão da criança.

Nas palavras de Piaget:

Sua função consiste em satisfazer o eu ou por meio de transformação do real em função dos desejos: a criança que brinca de bonecas refaz sua própria vida, corrigindo-a a sua maneira, e revive todos os prazeres ou conflitos, revelando-os, compensando-os, ou seja, completando a realidade através da ficção. Em suma, o jogo simbólico não é um esforço de submissão do sujeito ao real, mas ao contrário, uma assimilação deformada da realidade ao eu. De outro lado, a linguagem intervém nesta espécie de pensamento imaginativo, tendo como instrumento a imagem ou o símbolo. Ora, o símbolo é um signo – como a palavra ou signo muitas vezes compreendido pelo indivíduo, já que a imagem se refere a lembranças e estados íntimos e pessoais. É, portanto, neste duplo sentido que o jogo simbólico constitui o polo egocêntrico do pensamento. Pode-se dizer, mesmo, que ele é o pensamento egocêntrico em estado quase puro, só ultrapassado pela fantasia e pelo sonho. (1995, p.28 –29)
[1] Adrielle viu que sua colega – Laís – havia subido no sofá e que ficou pulando sobre ele; na casa de Adrielle tinham acabado de comprar um sofá novo, e sua mãe havia conversado com ela sobre não pular no sofá e como se sentar nele, e mostrou à Laís como se sentar; então Adrielle se manifestou: Laís desce daí, não é assim que se senta no sofá, você vai cair e estragar o sofá, não é assim que senta, é assim ó (e sentou-se no sofá para mostrar para a colega).

E para Vygotsky, o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança. Oliveria (1995), pesquisadora da teoria do autor, esclarece a zona de desenvolvimento potencial é o domínio psicológico em transformação constante. Ele delimita as potencialidades da criança: aquilo que a criança não consegue fazer sozinha hoje, terá capacidade de fazer logo a diante.

Pensemos em uma ponte e os dois lados de um rio:

O Imaginario infantil - ponte vygotsky

De acordo com Vygotsky, através do brinquedo, a criança aprende a atuar numa esfera cognitiva que depende de motivações internas. Nessa fase (idade pré-escolar) ocorre uma diferenciação entre os campos de significado e da visão. O pensamento que antes era determinado pelos objetos do exterior passa a regido pelas ideias. A criança poderá utilizar materiais que servirão para representar uma realidade ausente, por exemplo, uma vareta de madeira como uma espada (…). A criança passa a criar uma situação ilusória e imaginária, como forma de satisfazer seus desejos não realizáveis. Esta é, aliás, a característica que define o brinquedo de um modo geral. A criança brinca pela necessidade de agir em relação ao mundo mais amplo dos adultos e não apenas ao universo dos objetos a que ela tem acesso. (REGO, 1995, p. 81-82)

A Importância do Brincar

Durante a brincadeira, a criança interage e se permite transpor-se em situações em que não conseguiria agir na vida real. Nesse sentido, brincar desperta na criança o conhecimento que se desenvolverá e se tornará parte do conhecimento já consolidado (Desenvolvimento real).

A essência do brinquedo, nessa perspectiva, conforme afirma Vygotsky, “(…) é a criação de uma nova relação entre o campo do significado e o campo da percepção visual, ou seja, entre situações no pensamento e situações reais”. (1998, p. 137)

O Imaginario infantil - brincar

As relações que a criança estabelece ao brincar permeiam toda a atividade lúdica dela e serão um importante indicador do desenvolvimento infantil, influenciando sua maneira de vislumbrar o ambiente futuramente.

Vygotsky, afirma que a imaginação não é somente reprodutora de imagens já vivenciadas, mas é constituída a partir dessas imagens. Ele nos mostra que a distinção entre a memória e imaginação não consiste em si no ato de imaginar e sim nas razões as que provocam essa atividade.

A criação de uma situação imaginária não é algo fortuito na vida da criança; pelo contrário, é a primeira manifestação da emancipação da criança em relação às restrições situacionais. O primeiro paradoxo contido no brinquedo é que a criança opera com um significado alienado numa situação real. O segundo é que, no brinquedo, a criança segue o caminho do menor esforço – ela faz o que mais gosta de fazer, porque o brinquedo está unido ao prazer – e ao mesmo tempo, aprende a seguir os caminhos mais difíceis, subordinando-se a regras e, por conseguinte renunciando ao que ela quer, uma vez que a sujeição a regras e a renúncia a ação impulsiva constitui o caminho para o prazer do brinquedo. (VYGOTSKY, 1998, p. 130)

Além do faz de conta, o imaginário infantil está presente em todas as ações das crianças pequenas. Nesse sentido, a massinha, o desenho, a leitura de uma história, a contação de história, a dobradura, a pintura, as brincadeiras de roda, as brincadeiras dirigidas de movimento e tantas outras, também são formas de a criança se expressar.

Sendo assim, é no espaço do imaginário infantil que moram as oportunidades pedagógicas de aprendizagem das crianças pequenas. É através do brincar que a criança constrói seu entendimento de si, do outro e das relações que se estabelecem o meio. É portanto, através da inserção do professor nesse universo imaginativo que a educação infantil deve se fundamentar.

Sob essa perspectiva, e tendo os apontamentos acima como pano de fundo, ouça o nosso podcast sobre o Imaginário infantil

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Referências:

BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e Cultura – 6ª Ed. São Paulo: Cortez. 2006.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998.

______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular – BNCC: educação é a base. Brasília: MEC/SEB, 2018.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. 3. ed. São Paulo: Scipione, 1995.

PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. São Paulo: Zahar, 1975.

_______. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.

_______. Seis estudos de psicologia. Trad. MAGALHÃES, Maria Alice e SILVA, Paulo Sérgio Lima. 21ed. Rio de janeiro: Forense Universitária, 1995.p. 13 – 40.

REGO, Teresa Cristina. Vygostky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 3. ed.  Petrópolis: Vozes, 1995.

VYGOSTKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984

VYGOSTSKY, L.S. A imaginação e o seu desenvolvimento na infância. IN. YGOSTSKY, L.S. O desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes, 1998.p.107-130.

WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. Trad. Esméria. Rovai,  São Paulo: Pioneira Thomson. 5 ed. 1997. p.2 – 102.

WALLON, Henri. Psicologia e Educação da criança. Lisboa: Vega/Universidade,1979.

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