Hora da Roda: a sua importância na Educação Infantil

A roda, rodinha ou roda de conversa é considerada, para a construção de um ambiente sócio moral na educação infantil, como o momento mais importante do dia nas salas de aula de Educação Infantil. Além de ser o momento mais desafiador para os professores.

Texto sobre educação infantil

O objetivo primordial da hora da roda é o desenvolvimento sócio moral e cognitivo dos alunos pequenos. É nela que o professor irá conduzir os alunos à reflexão de seus atos, atitudes e sentimentos além de convidá-lo a fazer opções a respeito de como será aquele dia na escola.

Para a construção de um ambiente sócio moral é fundamental que o professor tenha em mente, em seu discurso e em sua prática, o senso de comunidade que deverá ser partilhado com as crianças. Para o sentimento de comunidade e pertencimento no grupo, alguns professores iniciam suas rodas com músicas e/ou mímicas. Isso não representa um problema. A hora da Roda pode ser utilizada para músicas e outras atividades também. Sugerimos, inclusive, que outras rodas para diferentes atividades sejam realizadas durante o dia. Devries e Zan em seu livro “A ética na educação infantil” (1998) ao tratarem do tema  da roda falam do envolvimento das crianças em sua auto regulação: construção da autonomia.

É importante destacar aqui, que os problemas afetivos dos alunos devem ser tratados e trabalhados na roda. Uma estratégia para dar início a essa conversa é perguntar como vão os alunos e caso algum afirme não estar bem, procurar saber a razão e juntamente com o grupo tentar buscar uma solução.

Hora da Roda na Educação Infantil

Quando algum aluno bate no colega na escola é importante que esse assunto seja trazido para a roda no sentido de que o aluno que bateu exponha suas razões.

O que apanhou conte como se sentiu e que assim, um possa pedir desculpas ao outro e todos possam manifestar suas opiniões a respeito do acontecido e desenvolver autonomia, auto-regulação e empatia. Desse modo, todos os alunos têm a oportunidade de refletir sobre as coisas que acontecem ao seu redor. Em algumas escolas de educação infantil, a roda é realizada 2 vezes ao dia ou mais. Uma para organizar as atividades e apresentar os temas a serem trabalhados naquele dia e outra ao final do dia para avaliar as atividades e comportamentos. Em outras, a roda acontece sempre que surge uma situação problema que exija o envolvimento de todo o grupo. Como é o caso de brigas e/ou desrespeito a organização da rotina ou desordem no espaço da sala de aula.

“Os professores construtivistas comprometem gradualmente as crianças no autogoverno. Ao planejarem projetos de grupo e dividirem a responsabilidade pelos cuidados de sua classe, as crianças experienciam metas grupais que transcendem as necessidades e desejos do indivíduo. Enquanto participam do estabelecimento das regras, da administração de problemas da classe, da proposta e escolha entre as opções para a atividade da classe e da tomada de outras decisões, elas aprendem numerosas lições de democracia.

As crianças aprendem que todas as vozes têm uma chance de ser ouvidas, que nenhuma opinião tem mais peso do que outra e que tem o poder de decidir o que ocorre em sua classe.

As crianças praticam o respeito e a cooperação mútua enquanto trabalham juntas, escutam umas às outras, trocam opiniões, negociam problemas e votam para tomar decisões que afetam todo o grupo. (…) Os professores construtivistas incentivam o raciocínio moral através de dilemas sociais e morais tanto da vida real quanto hipotéticos. O objetivo é que as crianças desenvolvam sentimentos de saber o que é certo e errado, bom ou mau, justo e injusto.” (DEVRIES e ZAN, 1998. p.116)

No que diz respeito ao desenvolvimento cognitivo, o objetivo central da roda é desenvolver a linguagem, o raciocínio e a inteligência. Desenvolver na criança a capacidade de olhar sob o ponto de vista do outro. Além disso, na roda o professor pode trabalhar assuntos diversos de acordo com temas planejados ou surgidos na própria roda.

O professor tem um papel fundamental de liderança durante a roda, ele deve conduzir a conversa de modo que alcance os objetivos da roda, além disso, é preciso que ele planeje sua ação anteriormente. No entanto, é fundamental destacar que esse planejamento necessita da abertura para as proposições e dúvidas que as crianças trazem.

O planejamento da roda, conforme já foi dito, deve ser maleável e passível de alterações, para esse fim, alguns professores de educação infantil, trazem duas ou mais alternativas de trabalho a serem desenvolvidos de acordo com as observações  anteriormente realizadas na própria sala. Assim, esses professores acabam sendo mais bem-sucedidos na construção de rodas produtivas e interessantes para os alunos.

A roda de conversa deve ter pequena duração, não devendo se estender muito para que as crianças pequenas não percam o interesse por ela. Deve variar ente 10 e 30 minutos de acordo com a idade dos alunos. Sendo que, com o tempo e hábito, as crianças podem se interessar por rodas maiores.

De um modo geral, a roda possui uma rotina de organização: boas vindas, músicas, organização do calendário, chamada, escolha do ajudante e apresentação das atividades do dia. É fundamental aqui que o professor apresente sua proposta, mas ouça também o que as crianças desejam. Por exemplo, o professor pode permitir que os alunos decidam que tipo de material irão usar para aquela atividade, no caso de uma atividade no papel se utilizarão lápis, giz, tinta, colagem, entre outros.

No caso da hora do brinquedo que tipo de brincadeira será: jogos de montar, brinquedos de um modo geral, sucata, algum jogo de faz-de-conta, jogos de regras, etc. No caso da hora da história, qual livro irão ler, caso o professor já não tenha escolhido um que trate do tema a ser trabalhado. Os alunos podem ainda organizar a sala para que possam fazer duas ou mais atividades. Enquanto uns fazem uma atividade, os outros fazem outra.

O professor poderá valer-se, quando necessário, de uma postura disciplinar na roda para evitar que os alunos se dispersem. Um exemplo dessa situação: A professora estava com o seu grupo de 16 alunos de 3 anos e meio de idade em roda. Um dos alunos começou a fazer barulhos com a boca atrapalhando a conversa. A professora pediu que o aluno parasse, ou que levasse o barulho para fora da sala até que a roda terminasse. O aluno optou por ficar na roda e não atrapalhar mais. A professora solicitou que o aluno pedisse desculpas ao restante do grupo.

É importante destacar aqui que alguns alunos, em alguns momentos no decorrer do ano, podem optar por não fazer parte da roda.

É fundamental que o professor respeite essa escolha, mas que mostre ao aluno que o grupo irá fazer as escolhas por ele e que ele deverá fazer todas as proposições, e que ele perderá parte importante do aprendizado. De um modo geral, os alunos que se recusam a participar, com o tempo se interessam e adaptam-se a rotina da roda.

Para finalizar, escute nosso podcast sobre a Hora da Roda.

Referências:

BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e Cultura – 6ª Ed. São Paulo: Cortez. 2006.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998.

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OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. 3. ed. São Paulo: Scipione, 1995.

PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. São Paulo: Zahar, 1975.

_______. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.

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REGO, Teresa Cristina. Vygostky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 3. ed.  Petrópolis: Vozes, 1995.

VYGOSTKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984

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WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. Trad. Esméria. Rovai,  São Paulo: Pioneira Thomson. 5 ed. 1997. p.2 – 102.

WALLON, Henri. Psicologia e Educação da criança. Lisboa: Vega/Universidade,1979.

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