O bullying na escola: o que é e suas consequências

Vamos conversar um pouquinho sobre o Bullying?

Para iniciar nossa conversa, leia esta pequena história.

Imaginem que nós estamos em Washington D.C., mais precisamente no Universo da D.C Comics, quem aqui gosta de quadrinhos ou do universo dos Super heróis?

Nós estamos como espectadores dentro da Sala de Justiça. Somos apenas espectadores. Os Super Amigos estão reunidos e olhando para o monitor aguardando que um novo crime aconteça e que eles possam sair da sala e combatê-lo.

No entanto, hoje é um dia diferente. Nenhum crime acontece.

Eles derem fim a todos os crimes. Não há mais nada de ruim ou errado acontecendo no mundo e os nossos heróis podem finalmente descansar.

O Super Homem pode finalmente ler aquele livro de George Martin, Game of Thrones.

O Batman, a Mulher Maravilha, o Lanterna Verde, o Chefe Apache, enfim, todos os Super Amigos, podem finalmente se ocupar de suas próprias vidas, caminhar calmamente em um jardim, contemplar a natureza, casar-se, etc.

Ah! Que dia maravilhoso! É o fim de todos os crimes.

Mas, não! Eles não estão felizes. Eles estão frustrados e perdidos, sabem por que? Porque a violência é mais atrativa que a paz. Gandhi, Martin Luther King são menos conhecidos ou admirados que Hitler.

A nossa sociedade valoriza a violência em tantos aspectos que é difícil listar.

A violência nos consome e nós consumimos violência o tempo todo. Aprendemos que rir do outro é legal. Vemos isso todos os domingos nas vídeo cassetadas. Gostamos desse sentimento, nos sentimos superiores. Os vídeos de tombos e humilhações no YouTube tem milhares de views.

Os animais se compadecem uns dos outros e nós não. Ao invés de sermos mais empáticos aos problemas dos outros, somos mais desrespeitosos. A sociedade está doente.

Nós olhamos o outro com desprezo e por ser o outro e não nós, nós não nos importamos.

Acreditamos que as características do outro que são diferentes das nossas são inferiores.

Mas, o que é o Bullying?

O termo bullying deriva da expressão inglesa bully que quer dizer valentão, tirano, intimidador. O bullying nesse sentido, é uma ação intimidadora que ocorre dentro ou fora da escola.

De acordo com a lei 13.185/2015 o Bullying é:

(…) todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

Vejamos também que o a lei diz em seus 2º e 3º artigos:

Art. 2º  Caracteriza-se a intimidação sistemática (bullying) quando há violência física ou psicológica em atos de intimidação, humilhação ou discriminação e, ainda:

I – ataques físicos;

II – insultos pessoais;

III – comentários sistemáticos e apelidos pejorativos;

IV – ameaças por quaisquer meios;

V – grafites depreciativos;

VI – expressões preconceituosas;

VII – isolamento social consciente e premeditado;

VIII – pilhérias.

Parágrafo único.  Há intimidação sistemática na rede mundial de computadores (cyberbullying), quando se usarem os instrumentos que lhe são próprios para depreciar, incitar a violência, adulterar fotos e dados pessoais com o intuito de criar meios de constrangimento psicossocial.

Art. 3º  A intimidação sistemática (bullying) pode ser classificada, conforme as ações praticadas, como:

I – verbal: insultar, xingar e apelidar pejorativamente;

II – moral: difamar, caluniar, disseminar rumores;

III – sexual: assediar, induzir e/ou abusar;

IV – social: ignorar, isolar e excluir;

V – psicológica: perseguir, amedrontar, aterrorizar, intimidar, dominar, manipular, chantagear e infernizar;

VI – físico: socar, chutar, bater;

VII – material: furtar, roubar, destruir pertences de outrem;

VIII – virtual: depreciar, enviar mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social.

Para ser tratado como bullying é necessário que três características sejam identificadas:

  • O bullying se dá entre pares onde se dá desbalanço de poder. É importante dizer que o bullying se dá entre pares. Ou seja, o assédio moral de um professor para com um aluno não é caraterizado bullying, pois eles não se encontram em um mesmo nível social. Bom como o assédio de um feche para com seu funcionário também é caracterizado bullying. O bullying se dá de um colega, ou alguns colegas para com outro colega. Pode ser um colega da escola, do trabalho, etc.
  • O bullying se dá forma repetitiva. O bullying não ocorre quando um colega debocha de outro, mas quando esse deboche se torna repetitivo e começa a afetar o colega agredido.
  • O bullying se dá de forma intencional. Para ser caracterizado bullying é preciso que a violência ocorra de forma intencional. Ou seja, o agressor tem a intenção de ferir o agredido, ele percebe a dor do outro e sente prazer em fazê-lo sofrer. Ele se sente forte e superior na condição de agressor.

Para ser caracterizado bullying, por tanto, é preciso que ocorra de forma repetitiva, entre pares e que seja intencional e repetitivo. Ou seja, o agressor tem a intenção de ferir o agredido, a vítima.

Popularmente no Brasil, o termo tende a se relacionar mais diretamente com assédio moral, humilhações em público, etc.

Mas não se trata disso. Esse conceito muitas vezes deturpa o entendimento do bullying dificultando sua identificação e a tomada de decisão para solucionar o problema.

É preciso compreender a diferença que muitas vezes é sutil entre a brincadeira e o bullying.

Muitas vezes, toda a turma acredita que está brincando com um colega mas aquele colega está sendo afetado pelas risadas e deboches. Nesse sentido, o professor precisa agir, para auxiliar toda a turma. Na brincadeira, todos riem, no bullying existe um indivíduo que está sofrendo.

O Bullying é um fenômeno recente?

O bullying não é algo novo. Ele sempre existiu, mas não existia um nome específico para designar esse tipo de violência, o termo foi utilizado pela primeira vez na Noruega em 1970, mas desde a década de 50 que temos registros de estudos sobre a violência no ambiente escolar. No Brasil, fazem poucos anos que o termo se popularizou. E ainda hoje, existem aqueles que tem um discurso de que sofreram bullying e que estão bem hoje e que as crianças de hoje estão sendo tratadas à “Leite com pera”.

O que acontece, é que a geração em que nós adultos fomos formados, não se preocupou muito com as consequências e marcas que a forma como fomos criados nos deixariam. Nós não temos como mensurar os impactos do bullying na vida de nossas crianças e jovens.  Temos notícias de crianças que se tornam adultos violentos ou que buscam relações violentas, por ter impregnado em si a convicção de que as relações se dão dessa forma. Temos jovens que se voltam contra a escola e chegam armados para matar os colegas. Temos notícias de suicídios, etc. Muitos são os impactos.

Muitas pessoas sofrem bullying e conseguem superar o problema e conseguem viver suas vidas.

Que bom que existem pessoas que conseguem se libertar, não é verdade? No entanto, nós professores precisamos justamente cuidar para que o bullying não ocorra e para que não deixe marcas naqueles que talvez não consigam superar e carreguem traumas por toda uma vida. E, como não temos elencar estes ou aqueles, é fundamental repensar nossa prática docente e aprender a identificar e romper com a teia do bullying no espaço escolar.

Quem são os agentes do Bullying?

Os agentes do bullying são três. Todos os três possuem grande relevância para que a violência aconteça.

A vítima, o agressor e o espectador.

O agressor é geralmente o líder da turma, o mais forte, o mais descolado. Mas via de regra é também um sujeito inseguro que esconde suas inseguranças fragilizando o outro. Ele só consegue se auto afirmar diminuindo o outro. Em desenhos animados é muito comum o agressor do bullying ter dificuldades com os conteúdos na sala.  Ele também precisa ser abraçado e acolhido.

O mestre Paulo Freire falava em enxergar o sofrimento que está por trás da resistência. É preciso olhar esse aluno. O professor e a escola precisam compreender se o que leva esse aluno a ser um agressor é circunstancial, ou seja, ela está vivendo uma situação na escola ou fora dela que o leve a ser mais violento – separação dos pais, um avô doente, a morte de alguém importante ? Será que este aluno possui uma questão patológica? Existe uma deficiência de convívio? Ou Será que é ausência de formação altruísta, formação para a cidadania? Esse aluno não possui empatia pelo outro?

A persona mais comum do cenário no bullying é o espectador. O espectador, apesar de parecer inofensivo, é tão violento quanto o agressor. Mas falta a ele a força, a coragem ou burrice do agressor. Sem o espectador, o agressor não tem motivação para ser violento. O espectador em alguns casos, une-se ao agressor por medo de se tornar vítima. Em alguns casos, por já ter sido vítima e ser uma forma de se libertar da agressão sofrida. “Vingar-se”. Em alguns casos, o espectador apenas não refletiu sobre seu papel nesse cenário e quão catastrófica pode ser a sua ação. O espectador também pode ser aquele que nada faz frente à agressão, não aplaude, e não reforça, mas também não defende ou denuncia. Essa omissão é uma forma de aprovação ao bullying.

Clipes coloridos para papel simbolizam as diferenças

A vítima do Bullying geralmente é alguém mais tímido e retraído que é escolhido pelo grupo para ser inferiorizado e diminuído. É o (a)  novato, o (a)   gordo, o (a)  magro, o (a)  de óculos, o (a)  deficiente, o (a)  negro, o (a)  gay, em alguns caso o aluno mais inteligente da turma. Em alguns casos, o bullying foge à essa regra, mas é raro. Grosso modo, as vítimas do bullying fazem parte desse grupo.

Outro ponto importante, a vítima nunca está em condição de reagir ao bullying. Hoje os padrões estabelecem uma fôrma e aqueles que não cabem na fôrma acabam sendo as vítimas. As meninas precisam se enquadrar num padrão de magreza, os meninos precisam descolados e fortes, etc. aquele que não se enquadra nesse padrão acaba sendo a vítima do bullying.

Quais as consequências do bullying para o agredido?

Não há como mensurar as marcas que as ações deixam nos outros. Eu sei o que eu digo, mas não sei como o outro recebe essa informação. Hoje já existem pesquisas que apontam que o bullying, além das situações extremas como é o caso de suicídios, ou mesmo retornos à escola para matar a todos, temos ai casos de depressão, abandono dos estudos, baixa autoestima, dificuldade de relacionamento, etc.

Estudos mostram também que mais da metade das vítimas não procuram ajuda ou falam sobre o problema, seja em casa ou na escola e chegam até a concordar com a agressão. É um discurso comum entre as vítimas do bullying afirmar que suas características, corroboram para que ele aconteça. “Ah… eu sou gorda mesmo…”, por exemplo.

O que é pior: a agressão física ou a agressão verbal?

As duas deixam marcas terríveis, mas na escola é muito mais fácil perceber a violência física e também ela escandaliza mais aos pais e aos colegas. Chamando a atenção e obrigando a todos a tomarem atitude rapidamente. A violência verbal, o assédio moral, é mais difícil de ser percebido e o professor precisa estar muito mais atento para ver o que está acontecendo. A exclusão e o deboche, muitas das vezes, deixará marcas muito mais profundas que o tapa.

Geralmente, por questões culturais da nossa sociedade, meninos praticam mais a violência física, já as meninas atuam mais comumente na agressão verbal – fofoca, exclusão, olhares e sussurros – são os mais comuns entre as meninas.

O que é preciso fazer para transformar a realidade do bullying?

A primeira coisa a ser feita é entender o que é o Bullying. Em seguida, o professor deve identificar os agentes. Quem são os autores, vítimas e espectadores. Primeiramente, é preciso ter uma conversa coletiva com o grupo, em seguida, separar os grupos e conversar isoladamente com a vítima, com o agressor e com os espectadores. A coordenação pedagógica e família devem participar desse processo de conversas individuais.

Mas o grande ponto a ser tocado é a questão da reflexão cotidiana na escola a respeito do convívio, do respeito ao outro, da diversidade humana. Ora, todos somos diferentes e se somos todos diferentes, não há porque uma característica ou outra ser vista como inferior. É preciso aprender a conviver com as pessoas. Respeitando-as, tendo empatia. Esse aprendizado acontece na escola, com os pares.

A escola precisa reforçar os sentimentos positivos em relação ao outro e não a competitividade. Esse é o caminho. A maria Beatriz Barbosa, em seu livro Bullying: mentes perigosas nas escolas, fala sobre a importância de a escola fazer com que seja legal ser legal.

Não é suficiente punir. É preciso inverter a lógica da exclusão. É preciso fazer com que a convivência entre as diferenças seja pacífica e prazerosa. É preciso reforçar na escola o sentimento de solidariedade.

Podemos transformar nossa forma de nos relacionar com o outro. Ao invés de olharmos para o outro com desprezo, podemos olhar com amor, empatia, educação, ética e respeito.

Os pilares para fim da exclusão e da discriminação que dão origem ao bullying são esses:

Amor, empatia, educação, ética e respeito.

Escola sem bullying

O mundo, a sociedade: a humanidade podem ser muito melhores do que os experimentamos hoje. E não adianta querer mudar o olhar do outro. Só é possível mudar-se a si mesmo. E ai, como uma teia de aranha que se constrói fio a fio, a mudança vai acontecendo.

Saiba mais em nosso podcast sobre o Bullying:

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2 comments

    1. Lucineia, ficamos muito felizes em poder ajudar. Continue nos acompanhando, teremos sempre conteúdos novos por aqui.
      Obrigado pelo feedback 😉

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